A expansão para o Oeste

A descoberta de ouro no Mato Grosso no início do século XVIII levaria grande número de paulistas e outros gentílicos rumo ao interior do país. Um trânsito tão expressivo de pessoas e mercadorias foi instituído que nas últimas décadas do século XVIII o governo da província de São Paulo decidiu iniciar o processo de ocupação efetiva da área, dando início assim ao povoamento “formal” das áreas próximas ao rio Tietê. Sempre necessário ressaltar que a “formalização”foi feita através do extermínio das ocupações “informais” já realizadas tanto pelos índios que habitavam a área, quanto por negros rebelados contra a sociedade escravocrata, ou brancos desejosos de uma nova vida. Claro que não deve ser desprezado também o intuito da Coroa portuguesa de aprofundar os domínios lusos sobre o território que, segundo o Tratado de Tordesilhas, seria espanhol. Não por menos, aproximadamente 30 anos depois da criação do Picadão de Cuiabá, seria assinado entre Portugal e Espanha o Tratado de Madri (1750), referenciado como aquele que estabeleceu a base para a formação geográfica do Brasil atual.

 

Almeida_Júnior_-_Estudo_da_Partida_da_Monção,_1897_(Bandeirantes)
A partida da monção, de Almeida Júnior – 1897

Tal migração para o interior (nessa época específica) foi um fenômeno denominado monções, e seu trajeto era realizado prioritariamente subindo o Rio Tietê até a Bacia do Rio Paraná. A rapidez do transporte fluvial era notável, além de não contar com os imprevistos da mata fechada. Uma viagem pelos rios, já no século XIX, duraria pouco menos de 15 dias, enquanto o mesmo caminho a cavalo demoraria meses, e, em muitos trechos, sem possibilidade de encontrar hospedagem e alimentação para toda a comitiva, que poderiam passar de 100 pessoas[1]. O caminho ganharia uma versão terrestre que proporcionou a criação de um núcleo de mercadores e viajantes na beira de escarpas 30 quilômetros ao norte de Piracicaba, local embrionário da cidade de Rio Claro, na época, conhecida como a entrada para o sertão de Araraquara[2]. Tal trajeto, conhecido regionalmente como Picadão de Cuiabá – e oficialmente por Caminho de Goiás – foi inaugurado por volta de 1720 e seria substituído por outro no final do mesmo século, devido à queda na produção aurífera em certas regiões do Mato Grosso. O segundo caminho, partia de Itu e passava por Piracicaba, atravessando as terras são-carlenses (mas a cidade ainda não existia!) na altura do córrego do Feijão, para chegar ao cerrado de Araraquara e depois à margem direita do Tietê, onde atualmente encontra-se a cidade de Jaú[3]. Entretanto, a transferência definitiva das vias fluviais para as terrestres só aconteceria com o declínio da mineração em Mato Grosso, pois a viagem pelos rios não só requeria menos equipamentos para o transporte da comitiva (como animais de carga), como a ampliação das vias na terra só será realizada quando atividades econômicas consideradas secundárias na época da mineração, como criação de gado, tornarem-se importantes para a sobrevivência econômica da região[4].

~~~ Referências ~~~

[1]  Messias. Cultivo do Café nas bocas do sertão paulista, página 21 – 25. Ver também Vestígios indígenas na cartografia do sertão da América portuguesa, de Glória Kok.

[2] Dean. apud Truzzi. Café e Indústria, página 31.

[3] Truzzi. Café, Industria e Conhecimento, página 20.

[4] Silva e Borges. Caminhos antigos no sul de Mato Grosso (século XIX): A estrada de Piquiri, página 337 – 338.

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